Sociedade Bíblica de Portugal

A Bíblia Explicada para Todos

“…a Bíblia precisa de ser explicada porque uma Bíblia não explicada pode dar azo a muita confusão e a muitos equívocos; a Bíblia Explicada para Todos é um instrumento que tem os ingredientes necessários para ajudar o leitor a entrar em diálogo com os textos bíblicos, evitando, à partida, os equívocos mais comuns e tentadores, principalmente se esta for a sua primeira viagem transcultural a bordo da Bíblia!”

Introdução

Escrevo estas linhas em representação do Grupo Bíblico Universitário (GBU), organização que tem uma afinidade natural com a Sociedade Bíblica, resultante de laços de amizade e colaboração ao longo das décadas, entre as duas organizações.


Foi-me solicitada uma apreciação desta nova Bíblia e, nesta apreciação, quero debruçar-me essencialmente sobre dois aspetos que constam no título deste projeto “A Bíblia Explicada para Todos” (BEPT): 1. Em primeiro lugar, reiterar que, de facto, a Bíblia precisa de ser explicada e que esta publicação da Sociedade Bíblica constitui um excelente contributo para explicar a Bíblia; 2. em segundo lugar, e ainda que esta ferramenta seja particularmente adequada para pessoas que não têm contacto habitual com a Bíblia, não hesito em afirmar que é uma ferramenta para todos.

1.

Começo por elencar alguns exemplos mais ou menos conhecidos de abordagens à Bíblia e aos seus temas que, a meu ver, padecem de falta de nuance. Ou seja, abordagens que poderiam ser aligeiradas se partissem de uma Bíblia Explicada. A este respeito recordo, por exemplo, as afirmações incisivas feitas em 2009 pelo Nobel José Saramago, escritor genial e ateu acérrimo; afirmava Saramago que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”[1]. Também posso recuperar o episódio de 2011 em que um conhecido autor e jornalista da nossa praça revelava em entrevista, de forma supostamente bombástica, que Jesus não era cristão.[2] Ou posso remeter-me a episódios da esfera pessoal e falar-vos de um amigo e colega dos tempos de secundário que asseverava com toda a convicção que era perigoso ler certas partes da Bíblia, em particular o Apocalipse, pois estas poderiam induzir o leitor a um estado de loucura…

Por participar em comunidades de fé desde que me lembro de ser gente, também poderia trazer à tona abordagens igualmente vincadas que encontro nessas comunidades, passando por vezes por leituras literais dos textos sem a devida contextualização cultural ou literária, ou pela desconsideração dos desafios e também dos benefícios que a crítica histórica e textual pode trazer à fé dos crentes.

Estas abordagens, dentro e fora das comunidades de fé, expressas em privado ou na praça pública, ilustram, a meu ver, a necessidade imperiosa de que a Bíblia seja explicada. Afinal, a Bíblia consiste numa coleção de livros antigos, textos “que nos chega[m] de outro mundo e outra época”[3] e que trazem muitas matizes de outras culturas. Ler a Bíblia implica, portanto, embarcar numa viagem transcultural na qual precisamos de intérpretes e de pontos de referência que sinalizem os marcos culturais e literários que, de outra forma, passam despercebidos. A BEPT oferece-nos esses pontos de referência, essa necessária contextualização, por meio de introduções a cada livro da Bíblia, das notas de rodapé que acompanham todo o texto bíblico, e do glossário no final. Assim, esta é efetivamente “uma ferramenta de compreensão do texto no seu contexto”[4].

Como é que esta ferramenta poderia ajudar a suavizar abordagens como aquelas que exemplifiquei anteriormente? Pensemos, por exemplo, no juízo sumário de José Saramago a respeito da Bíblia, que era em grande parte motivado pela violência retratada nas páginas do Antigo Testamento. Ora o leitor da BEPT vai encontrar esta dificuldade afirmada logo nas notas introdutórias, pois ali reconhece-se que “alguns leitores são surpreendidos ao encontrar na Bíblia relatos que parecem imorais ou chocantes, devido à violência que contêm”[5].

Assim esta é de facto uma ferramenta que procura encarar de frente as questões difíceis, com uma honestidade que considero louvável! E se o leitor tiver a coragem de embarcar nesta viagem, e considerar devidamente os pontos de referência que lhe são disponibilizados, poderá concluir que a violência retratada no Antigo Testamento é sim reflexo do comportamento humano ontem e hoje, mas os textos bíblicos podem ter o condão de restringir e até redimir essa violência. Por exemplo, em Êxodo 21:23-25 encontramos a chamada lei de talião, que consiste na rigorosa reciprocidade entre crime e pena, “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.” Esta reciprocidade soa obviamente e felizmente inaceitável em virtude do reconhecimento dos direitos humanos que orienta a nossa sociedade. Ora a nota de rodapé em Êxodo 21 assinala algo muito relevante a este respeito, explicando que a lei de talião “não tem como objetivo exigir a vingança, mas limitar os possíveis excessos”[6]. De igual modo, as notas explicativas ao longo do Pentateuco podem ajudar o leitor a entender a Lei de Israel como um meio para gerar uma sociedade justa e ordenada, ainda que culturalmente muito distante da nossa sociedade moderna.

Avançando para o exemplo seguinte, relativo à surpresa por Jesus não ser cristão, dá-se o feliz acaso de termos logo nas notas introdutórias desta edição a afirmação de que Jesus de Nazaré é proveniente do povo judeu.[7] Essa proveniência é óbvia para o leitor atento dos Evangelhos e, na verdade, todo o contexto cultural, político, religioso do judaísmo é necessário para compreendermos esses textos únicos que narram o ministério de Jesus. As notas de rodapé ao longo dos Evangelhos vão dando pinceladas para podermos vislumbrar esse quadro de fundo. Em particular, é fulcral compreendermos quem eram os outros judeus com quem Jesus frequentemente debatia, os fariseus, saduceus, doutores da lei. Nesta edição, estes termos estão explicados no glossário que se torna assim também uma ferramenta para ajudar à contextualização e interpretação dos textos. (Quanto ao termo “cristão”, a própria Bíblia indica que não foi cunhado por Jesus nem pelos seus seguidores, mas foi atribuído a estes pela população grega de Antioquia; ver Atos 11:26.)

No que respeita ao Apocalipse, gostava de poder viajar no tempo para explicar ao meu colega de secundário aquilo que consta na BEPT na forma de introdução a esse livro tão desafiante: o apocalipse “é uma maneira muito própria de anunciar a boa nova em épocas de perseguição. A finalidade do Apocalipse, como género literário, não é incutir medo [nem, permitam-me a adenda, levar à loucura], mas confortar os cristãos perseguidos e inseguros na sua fé, e estimular a confiança em Deus…”[8].

Finalmente, gostava de realçar a forma como os notas editoriais estabelecem preciosas pontes com o contexto cultural extrabíblico e com a crítica histórica e textual. Por exemplo, considero muito salutar que, em Génesis 6, quando é introduzida a história de Noé e do dilúvio, surja em rodapé uma referência às “várias narrativas do dilúvio que nos foram legadas pelas civilizações do antigo Médio Oriente… [e que] apresentam inúmeros pontos comuns com a [narrativa] de Génesis.”[9] Este tipo de referências contribui para uma leitura dinâmica dos textos, uma leitura que leva em consideração a cultura antiga e os artefactos antigos com os quais os textos podem muito bem estar a interagir. Considero também salutar a referência breve e não dogmática às diferentes perspetivas sobre a autoria do Génesis, na introdução a este livro.[10] Este tipo de referências é um pequeno contributo para diminuir o fosso que por vezes existe entre as comunidades de fé e a academia. (Também o GBU quer diminuir esse fosso, promovendo o diálogo entre a fé e a Universidade.)

Deixem-me resumir, por outras palavras, aquilo que pretendi vincar até aqui: a Bíblia precisa de ser explicada porque uma Bíblia não explicada pode dar azo a muita confusão e a muitos equívocos; a BEPT é um instrumento que tem os ingredientes necessários para ajudar o leitor a entrar em diálogo com os textos bíblicos, evitando, à partida, os equívocos mais comuns e tentadores, principalmente se esta for a sua primeira viagem transcultural a bordo da Bíblia! O facto de os editores terem empregado linguagem em Português-europeu corrente é também de realçar, pois contribui muito para tornar esta viagem mais inteligível para quem está imerso nesta linguagem no quotidiano. Ademais, uma vez que a fé não é imune aos equívocos que mencionei, este instrumento é útil para cristãos e para não cristãos. É útil para todos.

2.

Concluo vincando este “para todos” a partir de um outro ângulo. Temos assistido a um processo de secularização no Ocidente e esta não é certamente a ocasião para dissertar sobre os méritos desse processo e sobre os problemas que dele decorrem. Mas como consequência desse processo passamos a sofrer de uma espécie de amnésia coletiva relativamente às raízes bíblicas da nossa civilização e dos direitos humanos que damos como adquiridos.

A este respeito, os teólogos britânicos Angus Ritchie e Nick Spencer alertam para a fragilidade da Declaração Universal dos Direitos Humanos, num fascículo intitulado The Case for Christian Humanism. O preâmbulo da Declaração apela à dignidade humana como algo auto-evidente, mas este apelo, ainda que seja inteligível e admirável, não é plenamente robusto do ponto de vista filosófico. Este alerta tem sido feito por muitos pensadores ao longo das décadas, desde logo por aqueles que estiveram diretamente envolvidos na redação da Declaração. Ritchie e Spencer relembram a experiência de Jacques Maritain, filósofo Católico que teve um papel de charneira no rascunho da Declaração em 1948. Maritain conta que, num dos encontros da UNESCO em que estavam a ser discutidos os Direitos Humanos, “alguém expressou grande espanto por ver proponentes de ideologias tão diversas a chegar a acordo relativamente à lista de direitos, ao que lhe foi dito, ‘sim, nós concordamos acerca dos direitos, mas apenas sob a condição de que ninguém nos pergunte porquê’”[11].

Ora, sem me querer alongar em argumentos de Apologética, não posso deixar de realçar que, para os cristãos, o porquê é muito claro, pois os direitos humanos brotam da própria narrativa bíblica, em particular como resultado da mensagem e da obra de Jesus Cristo. Acreditamos que foi a partir de Jesus e dos seus seguidores que os direitos se imiscuíram na História da nossa civilização. Referi há pouco a lei de talião, a rigorosa reciprocidade entre crime e pena que visava limitar a vingança. Ora Jesus cita essa lei para a virar do avesso, indo muito mais além na revelação progressiva de uma praxis mais humanizante e reconciliadora:

Ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente. Mas eu digo-vos: Não resistam a quem vos fizer mal. Se alguém te bater na face direita, apresenta-lhe também a outra. Se alguém te quiser levar a tribunal para te tirar a camisa, dá-lhe também o casaco. Se alguém te obrigar a levar alguma coisa até a um quilómetro de distância, acompanha-o dois quilómetros. Se alguém te pedir qualquer coisa, dá-lha; e a quem te pedir emprestado não lhe voltes as costas.’ (Mateus 5:38-42)

Este texto é explicado de forma sublime na nota de rodapé da BEPT:

O princípio ‘olho por olho, dente por dente’ constituía um progresso para o povo de Israel porque limitava a vingança praticada por alguns. Jesus dá uma orientação nova e capital: para sair do círculo vicioso da violência e da vingança, propõe desarmar o inimigo com uma atitude sem ódio e uma vontade de paz. Tal é a justiça querida por Deus. Esta atitude justa, muito presente na vida de Jesus, deve manifestar-se na vida dos discípulos.[12]

Acreditamos que esta atitude a que se refere a nota da BEPT—esta manifestação de uma vontade de paz e de uma justiça reconciliadora—marcou a História, em particular a História ocidental (não obstante as muitas áreas em que os discípulos de Jesus falharam ao longo dos séculos, e continuam a falhar até hoje). Esta tese tem sido argumentada de forma contundente pelo historiador britânico Tom Holland, particularmente na sua recente obra Domínio: Como o Cristianismo transformou o pensamento Ocidental:

Que cada ser humano possuísse igual dignidade não era, nem remotamente, uma verdade auto-evidente. Um cidadão Romano rir-se-ia desta ideia… A origem do princípio [de que todos possuem valor em si mesmos] não reside na Revolução Francesa, nem na Declaração da Independência Americana, nem no Iluminismo, mas—tal como Nietzsche tinha afirmado de forma tão desdenhosa—essa origem encontra-se na Bíblia.[13]

Posto isto, ler a Bíblia, e, em particular, ler a Bíblia Explicada, é embarcar numa viagem transcultural que acaba por nos surpreender porque, a despeito da distância histórica e cultural, a paisagem vai parecer-nos estranhamente familiar. Isto porque esta leitura também nos mostra algo acerca da nossa identidade coletiva, numa sociedade Ocidental ainda embebida de valores bíblicos, mesmo que já não tenhamos o olhar e o vocabulário para os reconhecer. Neste sentido, ler a Bíblia devidamente contextualizada constitui um exercício para melhorar a nossa literacia cultural. Uma viagem transcultural que nos leva a ser mais fluentes na nossa própria cultura. A cultura de todos nós. Por isso, uma Bíblia Explicada para Todos. 

David Raimundo
Secretário-Executivo do Grupo Bíblico Universitário

Apresentação Bíblia Explicada Para Todos 

[Escrito originalmente para apresentação pública, a 2 de dezembro de 2022, na FNAC de Alfragide]

[1] https://www.rtp.pt/noticias/cultura/biblia-e-manual-de-maus-costumes-e-um-catalogo-do-pior-da-natureza-humana-jose-saramago_n287997

[2] Conforme regista o Pe. Anselmo Borges neste artigo de opinião : https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/jesus-nao-era-cristao-2204537.html

[3] BEPT, p. 7.

[4] Cf. nota de divulgação da Sociedade Bíblica de Portugal sobre o lançamento da BEPT.

[5] BEPT, p. 17

[6] BEPT, p. 134.

[7] BEPT, p. 16.

[8] BEPT, p. 1808.

[9] BEPT, p. 36.

[10] BEPT, p. 27.

[11] Angus Ritchie e Nick Spencer, The Case for Christian Humanism: Why Christians Should Believe in Humanism, and Humanists in Christianity (London: Theos, 2014), 46.

[12] BEPT, p. 1401.

[13] Traduzido do inglês: Tom Holland, Dominion: How the Christian Revolution Remade the World (New York, NY: Basic Books,  2019), p. 494.

Sociedade Bíblica de Portugalv.4.20.14
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