Sociedade Bíblica de Portugal

Uma festa entre servos

Aproximamo-nos da Páscoa, essa celebração milenarmente repetida, mas tantas vezes diluída de significado! Entre textos, ritos e rituais umas vezes perdemos o sentido, outras perdemo-nos no caminho da aplicação à nossa vida. Quem não sabe quase de cor e salteado o texto: “o Senhor Jesus, na noite em que foi entregue, tomou pão, deu graças a Deus, partiu-o e disse: «Isto é o meu corpo, entregue para vosso benefício. Façam isto, em memória de mim.» Do mesmo modo, no fim da ceia tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança feita através do meu sangue. Sempre que dele beberem, façam-no em memória de mim.»  (I Co 11,23-24).

Provavelmente, este é um dos textos mais lidos da história da igreja e, embora não esteja nos evangelhos, Paulo remete-nos para aquilo que ouviu e aprendeu acerca daquela última refeição. Porém, entre os «últimos» gestos e ensinos, todos da maior importância, há um que por vezes nos escapa quando lembramos aquela última ceia: a lavagem dos pés! Dito isto, temos de reconhecer que a ceia não acontece por causa da lavagem, mas a lavagem é o espírito da ceia. Permitam-me duas notas:

  1. 1. Na celebração da Páscoa TODOS sabiam que TUDO na festa tinha um significado e que deveria ser lembrado PERPETUAMENTE. E éneste contexto que Jesus, além de surpreender os discípulos, ordena-lhes que repliquem o seu gesto.
  2. 2.Neste contexto, Jesus lembra que a FELICIDADE que o ser humano busca depende de um princípio que é preciso pôr em prática.

Quando lemos o capítulo 13 de João verificamos que, no meio da ceia (não no início, nem no fim), Jesus comportou-se de forma estranha - sobretudo para um rabi/mestre: 1) levantou-se, 2) tirou a capa, 3) puxou pela toalha, 4) procurou a bacia, 5) colocou água, 6) lavou os pés aos discípulos, 7) e secou-lhos. Depois, ensinando-lhes perguntou se tinham percebido o que Ele acabara de fazer e certificou-se de que entendiam aquele gesto como um exemplo. Ao lavarem os pés uns dos outros, Jesus queria que os seus discípulos o seguissem e fossem conhecidos porseguir o seu testemunho de serviço.

Hoje, como no tempo de Jesus, a palavra servo continua conotada com a descrição de alguém que é menor. Os próprios discípulos disputaram entre si para saber qual deles seria o maior.  Todavia, Jesus não pensava assim e quis resgatar o conceito! Por isso, na noite em que partilhou e ensinou sobre o pão e o vinho como símbolos do seu corpo, deixou-nos o gesto da lavagem dos pés, não como um ritual litúrgico, mas como uma expressão de amor que exige uma nova MENTALIDADE acerca de ser servo. Jesus que era Deus, humilhou-se apresentando-se em forma humana para ser servo de todos os homens (cf Fl 2)

Talvez por isso, a celebração do corpo e do sangue de Jesus não deveria ser tanto uma cerimónia para membros, mas uma festa entre servos!

Simão Fonseca

Sociedade Bíblica de Portugalv.4.18.7
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